O teu e o meu silêncio
O teu silencio, a tua ausência, a tua falta, um piano que ecoa, a garoa que molha o telhado lá fora, meu coração apertado, querendo saltar do peito e correr mundo afora, os dias sem porquê, as noites insones, tua foto, tua lembrança, teu cheiro, teus olhos, minha dor que não se vai, e eu nem mesmo sei porque. Minhas ilusões, minhas fantasias, tuas fantasias, aquele velho carnaval, aquela máscara, a minha máscara, os teus cabelos, a minha barba que cresce e cresce, o meu cabelo esbranquiçado, a minha falta de rumo, o teu porvir incerto. A tua volta, a minha ida sem porque, minha voz que não fala, teus ouvidos que não ouvem, teu coração que não sente. A minha tosse, o teu andar, o meu café, meus pulmões cansados, meu pé que dói nos dias de chuva. As tuas lembranças a meu respeito, as minhas mãos que não sabem escrever, teu corpo, minha alma seca, a tv que não se cala. Minhas repetições, minha falácias, minha previsibilidade, teu céu, teu mar, minhas mentiras, tuas verdades, teu ser, meu tudo, meu ser, teu nada, minhas unhas, tuas pupilas, teu endereço, meu telefone, minha cor que fica cinza, tua onda, meu mar. Minhas cartas que retornam, você que não volta, eu que fico, eu que quero ir, meus clichês, meus jargões, tua poesia, tua beleza, minha sordidez, tua pureza, minhas canções, teus filmes. O teu silencio, a tua indiferença, a minha mudança, a diferença que você fez. A diferença que você não faz mais. O tempo que passa, a verdade que se revela. A foto que amarela, a tinta que some do papel. Tua fraqueza, tua maldade disfarçada, minha força, meu renascer. Tua arrogância, meu rever, teus excessos, teus erros, minha paciência que se esvai, teu rosto que se esvai, meu sorriso que brota, teu perfume que o vento leva, minhas narinas livres. Teu ainda, meu jamais. Teu querer, meu esquecer. Tuas lagrimas tardias, teu despertar, teu desejo, minha repulsa, meu asco. Tuas artimanhas, meu rescaldo, teu “um dia”, meu “it´s over”. Teu tempo que passa, teu corpo que definha, meu coração que cicatriza, meus olhos que ainda reconhecem a beleza, teus olhos que perdem o brilho. Tua voz que me chama, tuas mãos que me buscam, meus ouvidos surdos, meu corpo que se esgueira. Teu ódio, minha complacência. Tua raiva, meu sorriso, teu praguejar, minha ironia tranqüila. Tua solidão, teu tédio, minha placidez, teu coração amargo, minha alma leve. Teus quereres tardios, meu querer refeito, teu rancor, teu veneno, tua revolta, minha paz.
Escrito por Emerson Rechenberg às 16h46
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